1 – Como foi a visita à favela de Paraisópolis, em São Paulo? Os moradores foram acolhedores e contaram uma situação chocante. A população sofreu diversos abusos de agentes do Estado na Operação Saturação. Há relatos de espancamentos, discriminação, de comerciantes ameaçados com metralhadoras na cabeça, de extorsão. Hoje as crianças têm medo e fogem da polícia ou então brincam de matar policiais. A polícia passou a ser vista como algo negativo, o que é ruim. 2 – Além da ocupação, o Governo do Estado diz que foram feitos programas sociais na comunidade. Viu isso? Certamente há projetos, como um Centro Educacional Unificado (CEU) e um parque, mas há um enorme ceticismo. A principal preocupação é em relação às moradias. Muitos reclamaram de uma pressão enorme para se retirarem. Estão oferecendo R$ 5 mil, que não é nem o valor mínimo de uma casa. Alguns estão perdendo comércios que tiveram a vida toda. Vimos propostas de remoção que violam todos os direitos constitucionais e normas internacionais. O Estado está humilhando e destruindo a comunidade. 3 – Há um programa habitacional? Os prédios que estão construindo não são investimento social. Da maneira como foi feito, não condiz com a capacidade financeira local. Seria necessário arcar com diversos custos, incluindo condomínios caros. Muitos vão entrar e vender por não ter como manter os gastos, o que levará à concentração de propriedade. Não há benefícios reais para a comunidade. 4 – Mas e o fato de o Governo dizer que houve redução de 27% nos crimes? Não sei como isso é medido em uma comunidade como Paraisópolis. Pelo que sei, ninguém por lá costuma procurar a polícia para registrar ocorrências. O que posso dizer é que testemunhei a presença de grupos criminosos agindo abertamente. 5 – No Rio de Janeiro, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) ajudaram a diminuir a criminalidade? Vi reportagens sobre a redução, mas também não entendo como esta medição é feita. Assim como em São Paulo, essas comunidades não procuram a polícia. De todo modo, gostaria de analisar as UPPs. Sempre procuramos dar espaço para novos métodos. As operações violentas pararam onde há UPPs, o que é bem-vindo. 6 – Deu certo então? Na verdade, o que nos preocupa é a propaganda feita sobre as UPPs enquanto a repressão, o extermínio, a descriminação e a corrupção continuam na forma que o Estado se apresenta aos pobres no Rio de Janeiro. As UPPs parecem dirigidas para a zona sul. Se o Governo tiver capacidade de implementar UPPs junto com investimentos sociais em toda cidade, seria um projeto bem sério. Mas, pelo que sabemos, a polícia não tem estrutura para fazer isso. 7 – Visitou os morros da cidade? Visitei as comunidades de Acari e da Maré. Em Acari mais de 200 pessoas denunciaram operações ilegais sistemáticas. As famílias não conseguem sair para levar as crianças para a escola por causa de tiroteios. Há denúncias de espancamentos e extorsão. Ouvimos relatos de que em várias comunidades acontecem operações “Cavalo de Troia”, que é quando policiais entram em grupos grandes e, mesmo sem o morador concordar, se escondem em algumas casas. Eles esperam os traficantes saírem dos esconderijos para sequestrá-los ou matá-los. Fora do cenário político das UPPs, a realidade continua chocante. 8 – Como a Anistia vê o tráfico? Temos uma posição muito clara. Não é aceitável hoje em dia que comunidades sejam controladas por grupos armados com intenções criminosas. É uma ameaça ao Estado de Direito e um sintoma da negligência histórica em relação aos pobres. A corrupção e a conivência têm nutrido essa criminalidade. Sabemos que há policiais e outros agentes envolvidos ou recebendo propinas. 9 – Quando se fala em direitos humanos, muitos reclamam que não há preocupação com os policiais. Isso é verdadeiro? Nossa posição sempre foi clara em relação a isso. Quando o policial trabalha de forma correta, quando visa garantir o Estado de Lei e a segurança da população e não só reprimir e prender, qualquer ataque que sofre é uma ação contra a sociedade inteira. Não somos contrários à polícia, mas criticamos uma polícia baseada em violações de direitos humanos. Defendemos uma polícia bem remunerada, bem preparada. Sabemos que hoje muitos estão em situação extremamente precária, sem equipamento e pagamento adequados. 10 – A Anistia recebe mensagens de PMs? Após os ataques contra o helicóptero no Rio de Janeiro, recebemos muitas cartas de policiais. Eles escreveram não criticando nosso trabalho, mas sim dizendo que o quadro é tão precário e difícil que é preciso fazer algo. É uma situação tão extrema que muitos têm nos procurado. São pessoas com um papel importante e que a gente respeita. Por Daniel Santini daniel.santini@folhauniversal.com.br |
ENTREVISTAS: Tim Cahill - As Denúncias da anistia
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