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ENTREVISTAS: Luis Fabiano - O homem gol do Brasil

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Por Guilherme Bryan
guilherme.bryan@folhauniversal.com.br


Destaque da seleção brasileira para a Copa do Mundo da África do Sul, o atacante Luis Fabiano Clemente nasceu em Campinas (SP), em 8 de novembro de 1980 e iniciou a carreira na Ponte Preta, em 1997. Desde então, passou pelo São Paulo, onde virou um dos maiores artilheiros da história do clube, com 118 gols em 160 jogos; pelo Porto, de Portugal, onde ganhou o título mundial interclubes em 2004; e pelo Sevilla, da Espanha, com o qual conquistou a Supercopa Europeia, em 2006, e a Copa da UEFA, em 2006 e 2007. Pela seleção, ganhou a Copa América de 2004 e a Copa das Confederações de 2009.

1 – Como você avalia o grupo do Brasil na Copa do Mundo?
Considero um grupo muito difícil. A única seleção que não conheço é a Coreia do Norte. A Costa do Marfim eu conheço bem, pois há três jogadores que são meus companheiros de Sevilla (Zokora, Romaric e Koné). É uma seleção muito forte e veloz. Portugal, nós já conhecemos bem e eles têm ótimos jogadores como Cristiano Ronaldo, Deco, Liédson (os dois últimos brasileiros naturalizados), entre outros. Acho que, pela tradição, será nosso principal rival. No jogo mais recente, ganhamos por 6 a 2, mas Copa do Mundo é muito diferente de amistoso e a tendência é que seja um jogo muito mais disputado.

2 – Quais são as chances do Brasil conquistar essa Copa do Mundo?
Acho que a seleção brasileira é uma das favoritas, ao lado de seleções como Itália e Alemanha, que sempre chegam, e da Espanha, que está jogando muito bem. Caso eu realmente seja convocado, meu objetivo principal é ajudar o Brasil a conquistar o título. Ser artilheiro será uma consequência.

3 – O ex-jogador e técnico alemão Franz Beckenbauer declarou que o Brasil não joga mais no ataque e que o jogo da seleção não é mais tão bonito. Você concorda?
Não concordo. O Brasil busca sempre ter a iniciativa do jogo e vencer. Mas é claro que não somos bobos e temos uma preocupação defensiva e uma defesa compacta. Acho que isso é normal no futebol de hoje.

4 – Quais são as maiores dificuldades para se firmar na seleção brasileira e como é o convívio com o técnico Dunga?
A principal dificuldade é a concorrência, que é muito grande, principalmente no caso de um atacante. O jogador tem que aproveitar todas as chances que tiver, mesmo que sejam 5 minutos de um jogo. Agora o convívio com o Dunga é excelente. Ele é um técnico que conhece muito e que dá muita confiança aos jogadores. Ele foi fundamental para o meu bom desempenho na seleção.5 – Quando você descobriu que gostaria de ser jogador de futebol?
Desde criança, com mais ou menos 10 anos de idade, eu já jogava bola na rua e sonhava em ser um jogador de futebol. Sempre corri atrás do meu sonho e, sendo bem sincero, nunca pensei em exercer outra profissão.

6 – Você se inspirava em algum jogador em especial?
Inspirar não, mas sempre admirei o futebol do Romário. Com certeza foi um dos melhores atacantes que o Brasil já teve, finalizava como poucos e foi fundamental na conquista do tetra (na Copa do Mundo dos Estados Unidos, em 1994).

7 – Como foi ser dispensado da equipe infantil do Guarani com apenas 14 anos?
Foi um momento muito difícil e cheguei a pensar em parar de jogar. Realmente fiquei quase 1 ano parado até um amigo me chamar para um teste no Ituano (clube de Itu, no interior de São Paulo). Felizmente, consegui passar e recomecei minha trajetória no futebol.

8 – Logo depois você obteve a chance de jogar no futebol europeu, especificamente no Rennes, da França. O que passa, nesse momento, na cabeça de um rapaz de 19 anos?
A verdade é que, naquela época, eu não estava preparado para jogar na Europa. Foi muito difícil: o idioma, o frio, a adaptação ao futebol de lá. Os meus objetivos eram me firmar na Europa e chegar à seleção brasileira, mas isso não foi possível naquele momento. No ano seguinte, eu não estava tendo muitas chances no Rennes, houve o interesse do São Paulo e achei que era uma boa voltar ao futebol brasileiro, ainda mais para um grande clube.

9 – Em 2004, o São Paulo acabou eliminado na semifinal da Taça Libertadores da América e você foi bastante criticado pela torcida. Quais lembranças você tem desse momento?
Foi um momento muito ruim e realmente fiquei chateado, pois sempre fui um jogador guerreiro, que sempre deu a cara para bater nos momentos mais difíceis. Sei que isso faz parte do futebol e que não foi toda a torcida do São Paulo que me criticou. Não ficou mágoa e tenho um grande carinho pelo clube até hoje, tanto que penso, no futuro, em voltar a jogar no Brasil e minha preferência é o São Paulo, onde tenho uma história. Mas também não descarto a possibilidade de atuar por outro clube brasileiro.

10 – Boa parte da sua carreira foi acompanhada pela imagem de jogador que arrumava confusão e era expulso. O que fez pa-
ra revertê-la?
O mais importante para reverter essa imagem foi mudar o meu comportamento, amadurecer. Com o tempo, aprendi muita coisa e percebi que aqueles atos estavam me prejudicando. O nascimento das minhas filhas (Giovana, de 5 anos, e Gabriela, de 2 anos) também foi importante nesse processo. Hoje, tenho a responsabilidade de ser um exemplo para elas.

ENTREVISTAS: Crescer e ser feliz

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Por Gisele Brito
gisele.brito@folhauniversal.com.br


Crescer por crescer é a filosofia da célula cancerosa”. É com essa frase de impacto que o economista e consultor da Organização das Nações Unidas (ONU) Ladislau Dowbor começa um de seus textos e por consequência resume a defesa do índice de Felicidade Interna Bruta (FIB) como forma de medir as conquistas de um país. Diferente do Produto Interno Bruto (PIB), que reflete a soma de todas as riquezas produzidas em determinado local, o FIB considera o bem-estar da população. Afinal, crescer por crescer não garante que as pessoas se tornem mais felizes.

1 – O que significa o FIB?
É uma das metodologias de avaliação de qualidade de vida. No Butão (país pioneiro na implantação do FIB), fizeram pesquisas para saber o que era mais importante para a população. Descobriram que a parte estética era muito importante, que uma cidade bonita fazia bem. Eles viram que era essencial o sentimento de segurança. Perceberam que era importantíssimo estar perto de outras pessoas, conversar. Essas vontades diagnosticadas foram transformadas em nove eixos: bem-estar psicológico, meio ambiente, saúde, educação, cultura, padrão de vida, uso do tempo, vitalidade comunitária e a
boa governança.

2 – E como isso é posto em prática?
Uma vez que essas necessidades foram identificadas, elas foram levadas ao Ministério do Planejamento, que vai orientar os financiamentos do governo em função delas, ou seja, se transformaram em atividades de governo: melhorias no transporte, construção de espaços urbanos de lazer, entre outros.

3 – Mas ainda é um índice que mede a produtividade econômica, como o Produto Interno Bruto?
O FIB é um jogo de palavras, mas não uma brincadeira. É um índice econômico, mas não simplesmente para que as empresas possam vender mais caro. É economia a serviço das pessoas, e não o contrário.

4 – Por que avaliar o desenvolvimento do País usando o PIB
gera distorções?
O fato é que o PIB só mede a aceleração econômica e não leva em consideração o que a gente quer. A população quer uma vida com saúde, segurança, ter tempo para a família. Quer sociabilidade, poder encontrar, conversar com as pessoas. A ideia não é barrar o crescimento, mas ir na direção certa para atender esses desejos da população.

5 – E o mundo está indo para a direção certa?
O mundo vai mal. O PIB não só não aponta para a qualidade de vida como também não conta os custos. Se você está indo na direção errada, não adianta ir mais rápido.
6 – E o Brasil ?
Nós temos um atraso social e ambiental que é trágico. Nós quase aniquilamos a Mata Atlântica e a Amazônia. O ritmo de destruição baixou de 28 mil quilômetros ao ano para 7 mil quilômetros. Mas o desastre continua. Mas você diminuir por quatro o ritmo desse desmatamento, enfrentar aqueles jagunços armados representa muito. Claramente há uma mudança.
7 – O senhor também fala muito sobre as oportunidades da crise. Quais são elas?
O mundo se organizou nos últimos 30 anos no “oba-oba” de mais carros, de produtos que vão devolver aos seus cabelos o brilho natural, de consumir sem pensar que, na verdade, nós estamos tirando recursos naturais que são limitados. De certa maneira a crise financeira gerou uma “pancada” nas pessoas. Nós temos o aquecimento global, que é real. E, de repente, o mundo para e olha para a conferência sobre o clima das Nações Unidas em Copenhague. Pela primeira vez as pessoas começam a levar a sério o problema. Hoje qualquer revista tem dezenas de artigos dizendo que as pessoas podem consumir de maneira mais consciente, ou tem anúncios de diversas empresas que afirmam ser sustentáveis. De certa maneira estamos aproveitando as crises médias que temos vivido, como a crise financeira do ano passado e a crise ambiental, para começar a agir sobre essas coisas.

8 – Então são várias crises, não apenas a econômica?
Tivemos a crise financeira, a crise ambiental e em breve teremos a crise alimentar. O aquecimento global está diminuindo a produtividade agrícola, o que aumenta a fome. Um milhão de pessoas morrendo de fome não é crise? De aids já morreram mais de 25 milhões porque as indústrias farmacêuticas não produzem remédios para elas. Estamos deixando 10 milhões de crianças morrerem por causas ridículas, 1,4 milhão morre porque não tem água limpa. Nós temos uma convergência de processos críticos.

9 – Uma das coisas que mais contribuíram para a recuperação econômica do País durante a crise foi o consumo de bens como carros, uma indústria que gera emprego e movimenta vários setores, mas produz ônus para o meio ambiente. Como podemos nos desenvolver sem gerar esse ônus?
As pessoas continuam apoiando o PIB até hoje porque o que as move, na verdade, é a angústia do desemprego. Então, se o PIB está crescendo e gerando emprego, tanto faz. Isso se relaciona com o eixo que envolve o que se chama de “green jobs”, os empregos verdes.

10 – Como isso funciona?
A Coreia do Sul está investindo US$ 36 bilhões (R$ 65,5 bilhões) em transporte público e alternativas energéticas. Isso gera 960 mil empregos, o que melhora os índices sociais, aumenta a demanda e portanto reduz o impacto da crise. Ao mesmo tempo, o programa obriga o desenvolvimento de novas tecnologias, que diminuem o número de carros nas ruas e melhoram o clima.

ENTREVISTAS: Tim Cahill - As Denúncias da anistia

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O coordenador para assuntos brasileiros da Anistia Internacional, o inglês Tim Cahill, visitou o Brasil no final do ano passado. Responsável pelo relatório de uma das principais instituições de defesa dos direitos humanos do mundo, ele conferiu de perto os resultados da Operação Saturação, na favela de Paraisópolis, em São Paulo. Trata-se da ocupação feita pela Polícia Militar entre fevereiro e abril do ano passado, após uma manifestação violenta terminar em quebra-quebra, com carros destruídos e lojas saqueadas. O protesto foi pela morte de um morador. Segundo as autoridades, tratava-se de um criminoso foragido baleado em tiroteio. Os manifestantes afirmaram na ocasião que ele foi executado. Cahill faz críticas à estratégia do Governo paulista e à política de segurança pública do Rio de Janeiro, cidade que também visitou.

1 – Como foi a visita à favela de Paraisópolis, em São Paulo?
Os moradores foram acolhedores e contaram uma situação chocante. A população sofreu diversos abusos de agentes do Estado na Operação Saturação. Há relatos de espancamentos, discriminação, de comerciantes ameaçados com metralhadoras na cabeça, de extorsão. Hoje as crianças têm medo e fogem da polícia ou então brincam de matar policiais. A polícia passou a ser vista como algo negativo, o que é ruim.

2 – Além da ocupação, o Governo do Estado diz que foram feitos programas sociais na comunidade. Viu isso?
Certamente há projetos, como um Centro Educacional Unificado (CEU) e um parque, mas há um enorme ceticismo. A principal preocupação é em relação às moradias. Muitos reclamaram de uma pressão enorme para se retirarem. Estão oferecendo R$ 5 mil, que não é nem o valor mínimo de uma casa. Alguns estão perdendo comércios que tiveram a vida toda. Vimos propostas de remoção que violam todos os direitos constitucionais e normas internacionais. O Estado está humilhando e destruindo a comunidade.

3 – Há um programa habitacional?
Os prédios que estão construindo não são investimento social. Da maneira como foi feito, não condiz com a capacidade financeira local. Seria necessário arcar com diversos custos, incluindo condomínios caros. Muitos vão entrar e vender por não ter como manter os gastos, o que levará à concentração de propriedade. Não há benefícios reais para a comunidade.

4 – Mas e o fato de o Governo dizer que houve redução de 27% nos crimes?
Não sei como isso é medido em uma comunidade como Paraisópolis. Pelo que sei, ninguém por lá costuma procurar a polícia para registrar ocorrências. O que posso dizer é que testemunhei a presença de grupos criminosos agindo abertamente.
5 – No Rio de Janeiro, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) ajudaram a diminuir a criminalidade?
Vi reportagens sobre a redução, mas também não entendo como esta medição é feita. Assim como em São Paulo, essas comunidades não procuram a polícia. De todo modo, gostaria de analisar as UPPs. Sempre procuramos dar espaço para novos métodos. As operações violentas pararam onde há UPPs, o que é bem-vindo.

6 – Deu certo então?
Na verdade, o que nos preocupa é a propaganda feita sobre as UPPs enquanto a repressão, o extermínio, a descriminação e a corrupção continuam na forma que o Estado se apresenta aos pobres no Rio de Janeiro. As UPPs parecem dirigidas para a zona sul. Se o Governo tiver capacidade de implementar UPPs junto com investimentos sociais em toda cidade, seria um projeto bem sério. Mas, pelo que sabemos, a polícia não tem estrutura para fazer isso.
7 – Visitou os morros da cidade?
Visitei as comunidades de Acari e da Maré. Em Acari mais de 200 pessoas denunciaram operações ilegais sistemáticas. As famílias não conseguem sair para levar as crianças para a escola por causa de tiroteios. Há denúncias de espancamentos e extorsão. Ouvimos relatos de que em várias comunidades acontecem operações “Cavalo de Troia”, que é quando policiais entram em grupos grandes e, mesmo sem o morador concordar, se escondem em algumas casas. Eles esperam os traficantes saírem dos esconderijos para sequestrá-los ou matá-los. Fora do cenário político das UPPs, a realidade continua chocante.

8 – Como a Anistia vê o tráfico?
Temos uma posição muito clara. Não é aceitável hoje em dia que comunidades sejam controladas por grupos armados com intenções criminosas. É uma ameaça ao Estado de Direito e um sintoma da negligência histórica em relação aos pobres. A corrupção e a conivência têm nutrido essa criminalidade. Sabemos que há policiais e outros agentes envolvidos ou recebendo propinas.

9 – Quando se fala em direitos humanos, muitos reclamam que não há preocupação com os policiais. Isso
é verdadeiro?
Nossa posição sempre foi clara em relação a isso. Quando o policial trabalha de forma correta, quando visa garantir o Estado de Lei e a segurança da população e não só reprimir e prender, qualquer ataque que sofre é uma ação contra a sociedade inteira. Não somos contrários à polícia, mas criticamos uma polícia baseada em violações de direitos humanos. Defendemos uma polícia bem remunerada, bem preparada. Sabemos que hoje muitos estão em situação extremamente precária, sem equipamento e pagamento adequados.

10 – A Anistia recebe mensagens de PMs?
Após os ataques contra o helicóptero no Rio de Janeiro, recebemos muitas cartas de policiais. Eles escreveram não criticando nosso trabalho, mas sim dizendo que o quadro é tão precário e difícil que é preciso fazer algo. É uma situação tão extrema que muitos têm nos procurado. São pessoas com um papel importante e que a gente respeita.

Por Daniel Santini
daniel.santini@folhauniversal.com.br


10 PERGUNTAS:Sônia Drigo - Presas por “quase nada”

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O trabalho da advogada Sônia Drigo é tema do documentário “Bagatela” – que trata de crimes
insignificantes, como furto de objeto de valor irrisório – dirigido por Clara Ramos. O filme conta histórias de mulheres que são presas e passam anos na cadeia por roubar (ou tentar) um pacote de bolacha, um creme, um pedaço de queijo. Sônia defende essas
mulheres de graça desde 1997 e afirma: “O que dá a sensação de impunidade é quando se solta quem matou uma pessoa e se prende quem tentou comer chocolate ou passar óleo no corpo”.

1 – Gostaria que contasse um pouco sobre seu trabalho. É voluntário?
Sim, é voluntário. Trabalho com a questão da mulher presa desde 1997, quando fiz parte de um grupo formado por integrantes da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, advogados e estagiários para atender denúncias de tortura na penitenciária feminina do Tatuapé (em São Paulo) – fechada em 2005. Desse grupo surgiu a idéia de fundar o ITTC – Instituto Terra, Trabalho e Cidadania. Em 2001, o ITTC e outras entidades de direitos humanos formaram o Grupo de Estudos e Trabalhos Mulheres Encarceradas. Em 2004, conheci casos de mulheres presas por furto de comida, roupas de bebê, lápis de olho, óleo de amêndoas. E passei a fazer habeas-corpus e defesa para as que me chegavam. São mais de 400 casos.

2 – Muitas mulheres vão presas por pequenos furtos?
Todos os dias mulheres são presas por “quase nada”. Homens bem menos. Outro dia, recebi uma moça que foi presa por tentativa de furto de paçoca, azeitona e temperinho, no total de R$ 15.

3 – O Governo se defende dizendo que as penas alternativas já superam as de reclusão. É verdade?
Isso é um engano na interpretação dos dados. Eles consideram a aplicação da pena alternativa nas sentenças, mas não constatam as prisões em flagrante em que as pessoas são mantidas presas durante o processo, mesmo sabendo que no final das contas poderá cumprir pena em liberdade ou prestando serviços. A grande ilegalidade está aí.

4 – As penas alternativas são aplicadas quando a pessoa passou um tempo presa?
Muitas são condenadas a cumprir pena em regime semiaberto, mas são impedidas de apelar em liberdade e continuam nas cadeias até o recurso ser julgado. Quando a sentença de regime semiaberto se torna definitiva elas são soltas, mas cumpriram a pena no regime fechado, sem direito a trabalho, estudo.

5 – No documentário parece que os juízes ainda têm visões diferentes sobre os crimes de bagatela?
Vai da sorte de cada uma. Se o processo for distribuído para uma vara criminal que tenha um juiz como um dos entrevistados no documentário, será caso de condenação pois o juiz deixa claro não ser favorável à aplicação de penas alternativas e que a prisão é o melhor remédio. Por outro lado, se o processo for distribuído para uma vara que tenha um juiz que pense o contrário, a pessoa terá a dignidade respeitada e os princípios da
insignificância aplicados de início.

6 – O que deveria ser feito?
Em primeiro lugar deixar a prisão para as exceções que existem na lei penal, como risco de fuga, perseguição às testemunhas, tumultuar o processo, que são os requisitos da prisão preventiva. Julgar rápido, mas com qualidade técnica tanto dos defensores quanto dos promotores porque no processo muitas vezes não se olha para aquela pessoa que está sendo julgada. Não se sabe nada da vida dela, não se preocupa em saber e julga-se de forma diferente casos idênticos. Isso é o que dá a sensação de impunidade, quando se solta quem matou uma pessoa e se prende quem tentou
comer chocolate.

7 – Onde está a falha?
Na qualidade dos operadores do direito: juízes, promotores e defensores públicos e particulares. Falta vocação, maturidade, compromisso. Sobra preconceito, inexperiência, desconhecimento de direitos humanos e das questões sociais. Quem é preso em flagrante poderia ter o seu caso analisado por um juiz em menos de 48 horas. Em tese, num caso de insignificância, o juiz poderia mandar soltar imediatamente. Não faz. O promotor também poderia pedir a soltura por entender que não põe em risco a sociedade. Não pede. Ao contrário, sempre discorda de qualquer pedido de benefício. O defensor poderia pedir a liberdade provisória para que a ré pudesse responder o processo livre. Não pede. A superlotação mostra que há pessoas presas que não deveriam estar.

8 – Qual o perfil de quem comete esses pequenos furtos?
O perfil é sempre o mesmo: baixa escolaridade, sem profissão definida, jovens, com filhos. Acho que não resistem. Não são violentas. Vão ficando mais sabidas (no mau sentido) com o passar do tempo. Arriscam. Não se preocupam com as câmeras internas, sensores nas portas, etc. Simplesmente não resistem à vaidade, à vontade de comer uma picanha, usar uma lingerie diferente ou um brinquedo de bebê. São sempre pobres e na maioria das vezes usuárias de drogas.

9 – Como você escolhe os casos que vai defender?
Não escolho, os que chegam ao meu conhecimento eu faço. Ou me trazem a lista, ou eu anoto quando visito penitenciárias. Tento entrar logo com habeas-corpus, porque não se precisa de procuração da presa, às vezes é preciso entrar no processo e aí assumo a defesa toda.

10 – O documentário repercutiu?
Ele teve sua pré-estreia no Cinesesc em São Paulo, no 15º Seminário Internacional do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais em agosto e na Associação dos Advogados de São Paulo. As faculdades de direito têm
demonstrado interesse, o que é positivo.

Por Andrea Dip
andrea.dip@folhauniversal.com.br


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ENTREVISTA: Laura Frade - a lei é para todos

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No começo do mês, os principais políticos do partido Democratas (DEM) do Distrito Federal, incluindo o governador José Roberto Arruda, o vice Paulo Octávio, secretários e deputados, foram acusados de receber propinas de empresários interessados em obras e concorrências públicas. Os políticos foram filmados recebendo dinheiro pelo ex-secretário de Relações Institucionais, Durval Barbosa, que delatou os colegas em troca de benefícios no julgamento e proteção policial. Nesta entrevista, a pesquisadora Laura Frade, especialista em criminalidade e política, analisa o escândalo e defende que, se todos forem julgados como prevê a lei, o episódio pode ser positivo para o País. Graduada em Direito e Psicologia, com mestrado em ciência política e doutorado em sociologia, a professora da Universidade de Brasília pede rigor contra a corrupção e crimes de colarinho branco.

1 – Com base nos estudos que fez sobre o Legislativo, como vê o escândalo envolvendo o governador?
O estudo que fiz indica que existe uma mentalidade no Brasil de que os integrantes da elite têm mais direitos do que os outros. Não é algo novo, é algo que vem desde o Brasil colonial. O que é novo, e isso é bom, é ficarmos sabendo como as coisas funcionam. É importante para que a gente veja os preconceitos que existem. Um deles é que no Brasil a lei é mais branda para uns do que para outros. É preciso aplicar a lei neste caso.

2 – Quando é algo explícito, é mais fácil trabalhar isso?
Exatamente. A gente acha natural que uma pessoa da elite política aja assim. Todos brincam, fazem piadas, mas quando aparecem as imagens, é diferente. As imagens, neste caso, são muito fortes. Uma coisa é explicar o que é crime de colarinho branco, que é algo complexo. Outra é ver uma cena de alguém recebendo maços de dinheiro.

3 – Mesmo com imagens, políticos falam em precipitação. O deputado federal ACM Neto (DEM) disse que não estamos na Santa Inquisição e que todos têm direito à defesa. O que acha?
Estamos em um Estado de Direito, embora o direito seja mais para uns do que para outros. Imagina se essas pessoas não compusessem a elite política? Teriam sido presas na hora. O que o deputado diz é perfeito, todos têm direito à defesa, ricos ou pobres. A lei é igual. Quando chegarmos neste estágio, e esse caso pode ajudar, conseguiremos reverter nosso maior problema.

4 – Qual é nosso maior problema?
O maior problema do país é a pobreza política. As pessoas não se sentem capazes de defender os próprios direitos, de constituir as próprias histórias, e o que acontece? Elas se tornam vítimas daqueles que sabem fazer isso. Temos que reverter a ideia de que a lei é mais para uns do que para outros.

5 – O estudo que publicou indica que os políticos têm visões diferentes da criminalidade. Como isso se dá?
Analisei todos os projetos de lei sobre criminalidade apresentados durante uma legislatura e entrevistei parlamentares. A legislatura escolhida foi a que teve o maior número de escândalos vinculando políticos à corrupção. Nesta legislatura específica, o Congresso poderia ser visto como um local em que a criminalidade também ocorre. Ao conversar com os parlamentares, vi que existem diferentes visões a respeito de quem é o criminoso.
6 – Como assim?
De 646 projetos de lei apresentados sobre criminalidade, apenas dois propunham regular ou aumentar a punição para crimes de colarinho branco. Todos os outros cuidavam de tornar mais rígido o sistema. Isto quando a pena deveria servir para ressocialização. A primeira conclusão do estudo é que a lei está servindo para aumentar a criminalidade ao criar mais regras para o pobre, o negro, e regular menos o crime do colarinho branco. É uma representação social. O criminoso sempre é o outro, o crime nunca acontece onde estamos.

7 – Isso é bastante comum?
Sim, todos nós, quando vemos as imagens, ficamos chocados. Mas é tão comum levar clipes do trabalho, tirar fotocópias. É sempre o outro. E eu? No que contribuo para que tudo continue como está? Podemos aproveitar o momento para transformar essa mentalidade que vem nos atrasando. Crise em grego quer
dizer oportunidade.

8 – Como lidar com a criminalidade? Muitos defendem repressão.
O crime é algo que fere o tecido social, ou seja, que viola regras estabelecidas em consenso para que todos vivam bem juntos. Quando há um furo, o certo seria recompor o tecido. É como uma roupa que fica com vários buraquinhos e, quando a gente vai usar, rasga inteira. A visão de tolerância zero é predominante no mundo hoje, mas ela é limitada. Se todas as vezes eu endurecer sem recompor o tecido, na verdade estou agravando a situação e não melhorando.

9 – Na prática, o que dá para fazer?
Muito. Existe, por exemplo, o conceito de justiça restaurativa, que é diferente da atual. Hoje, quem comete um crime vai para a cadeia e pronto. A justiça restaurativa prevê que é preciso analisar por que o crime aconteceu, onde a sociedade falhou. Existe a preocupação em restaurar o tecido social. Também dá para trabalhar a questão da família. Há um estudo que indica que a maioria dos meninos delinque em razão da ausência paterna. A gente precisa entrar com um antibiótico forte quando o corpo
está doente.

10 – Como entender a criminalidade? É um problema social, psicológico, genético?
Hoje, a teoria que prevalece é a de analisar a criminalidade como problema social, mas não dá para dizer que é só isso. É um problema complexo, que envolve também a parte psicológica. Só a genética não entra. Ninguém nasce para ser criminoso, esse tipo de teoria já foi superada.

Daniel Santini
daniel.santini@folhauniversal.com.br


10 PERGUNTAS Á: Luiz Fernando Prôa - o álcool leva às drogas

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Por Carlos Antonio
redacao@folhauniversal.com.br


Oescritor Luiz Fernando Prôa viu a vida virar de cabeça para baixo quando o filho Bruno, viciado em crack, assassinou Bárbara Calazans, uma jovem de 18 anos, no final de outubro, no Rio de Janeiro. Ao ser avisado pelo próprio filho do crime, chamou a polícia. A partir daí, seus dias jamais foram os mesmos. Agora, está envolvido numa luta para evitar que outros pais passem pelo que está passando. E pede atenção para todos os vícios, mesmo os que possam parecer menos nocivos: “O álcool é a principal porta de entrada para as drogas.”

1 – O senhor tem consciência de que se transformou numa bandeira de luta para milhares de pais que enfrentam o mesmo tipo de problema?
Tenho, e isso me assusta, já que não calculo a dimensão desta coisa. Sou uma pessoa comum. Estou acostumado à solidão de meu trabalho como escritor e promotor de cultura na internet. Às vezes, circulo em eventos poéticos e artísticos, mas a maior parte do tempo não. Meu assombro cresce quando vejo que, não só as famílias com problemas com drogas, mas uma legião de indignados com tanta falta de paz e humanidade, se identifica com as questões que estou levantando.

2 – O que mudou na sua vida desde o episódio com seu filho?
Tudo.

3 – Que conselho você daria a pais que vivem a mesma situação?
Que lutem por seus filhos, não só em casa, mas pressionando as autoridades para que ajam rápido e mudem este estado de coisas. É como o slogan dito pelo Projeto Zap, da internet: “Dizer não às drogas... não basta!”, temos que fazer muito mais se queremos minimizar o estrago que elas produzem.

4 – De acordo com a lei, a internação para o usuário de drogas depende da própria vontade do viciado. Um projeto no Congresso propõe a obrigatoriedade do tratamento. O que o senhor acha?
Quem não se droga neste País? Garanto que não são poucos. Não são só as drogas ilegais que são drogas. As bebidas alcoólicas, apesar de legais, fazem parte da mesma categoria. É preciso internar contra a vontade todo dependente químico que perdeu os limites, contanto que haja qualidade no atendimento e critério para evitar abusos. Mas temos que ir mais longe, já que o álcool é a principal porta de entrada para o mundo das drogas. É preciso pôr fim em toda propaganda de bebidas alcoólicas, em qualquer meio. Colocar advertências educativas nos rótulos dessas bebidas sobre os prejuízos que podem causar à saúde, assim como se faz nos maços de cigarros. Abrir a discussão sobre o aumento da idade permitida para o consumo de bebidas para 21 anos, como já acontece em outros países, e com fiscalização eficiente.
5 – Já foi procurado por alguma autoridade para discutir algumas dessas sugestões?
Não. Estou mais preocupado com que meu grito seja ampliado, com que mais gente passe a opinar e ser ouvida. Como disse, sou apenas um cidadão comum e não o dono da verdade. Nossa sociedade precisa discutir suas questões, participar ativamente na condução de nossos destinos, pressionar por seus direitos e não deixar tudo na mão de políticos, de grandes empresários e sindicatos.
6 – Como uma família pode evitar que seus filhos mergulhem no mundo das drogas?
O primeiro passo é ficar de olho nas bebidas alcoólicas. Elas rolam em festinhas de criança, nos churrascos em família, entre os amigos da escola, nas baladas e bares. Com isso, usando uma droga pesada, como é a bebida alcoólica, eles se acostumam com o estado de embriaguez, euforia e desinibição que ela provoca, o que os
aproxima de outras experimentações. O segundo, é educar. Mostrar o estrago que essa droga provoca. É só dar uma passadinha na “cracolândia” de sua região para ver o efeito devastador que o crack provoca. O caso de meu filho é bem educativo, uma pessoa boa, educada, carinhosa e que chegou ao fundo do poço e à cadeia. Um caso de saúde pública que virou um caso de polícia.

7 – O senhor acha que cabe prioritariamente ao Governo Federal a tarefa de combater a entrada de drogas?
Sim. Mas o problema maior não são as drogas, elas são apenas uma ponta do iceberg, e afiada. As armas que entram fazem muito mais estrago.

8 – A religião, de alguma forma, pode ajudar a resolver o problema das drogas?
A religião não vai resolver o problema das drogas, mas com certeza pode contribuir, e muito. Contudo, a situação é mais complexa, e muitos que vivem esse problema não querem nem ouvir falar em Deus, o que é lamentável.

9 – O Governo prometeu medidas concretas para ampliar o atendimento aos usuários de drogas. O senhor acredita que isso vai acontecer?
Já estamos acostumados com isso. Estoura uma bomba, chegam os bombeiros e ficamos aguardando o próximo incêndio. Já cansamos de ver soluções paliativas e maquiadoras que não resolvem os problemas. Não quero prejulgar as boas intenções que às vezes aparecem, mas vemos que as ações são sempre menores que os problemas a enfrentar.

10 – O que se pode fazer com meninos de rua já mergulhados no vício?
Investimento pesado e educação. Um povo instruído tem melhores condições sociais e pode controlar melhor seu crescimento em número. Não adianta construirmos dez hospitais se daqui a 5 anos vamos precisar de 30, construir 30 se daqui a 10 anos vamos precisar de 90. É preciso arregaçar as mangas e ter fé em um futuro melhor.

10 PERGUNTAS Á: BRITTO JR. No comando da fazenda

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Por Guilherme Bryan
guilherme.bryan@folhauniversal.com.br


Barbudo, o jornalista e apresentador de televisão Hilton Antônio Mendonça Britto Júnior, de 46 anos, mais conhecido como Britto Jr., apresenta, desde a semana passada, a nova temporada do reality show “A Fazenda”, da “Rede Record”. A segunda edição do programa, que fez grande sucesso no primeiro semestre, deve terminar no início de fevereiro e começou liderando a audiência no domingo (15). “A ‘Record’ está estourando champanhe até agora por conta dos números do Ibope da estreia“, comemora. O apresentador revelou nesta entrevista novos detalhes da atração e garantiu, após o primeiro episódio, que “a segunda temporada será tão boa quanto a primeira, ou até melhor“.

1 – Quais os desafios de apresentar a nova temporada de “A Fazenda”?
O principal desafio é fazer um programa com a mesma qualidade da primeira temporada. Estamos preparados para isso, porque a equipe é espetacular e o novo elenco é tão bom quanto o primeiro. Fora isso, “A Fazenda” pegará as festas de fim de ano, o que será uma experiência legal, já que tanto no Natal, quanto na virada, estaremos ao vivo. Vamos nos divertir e trabalhar ao mesmo tempo.

2 – Como você lidará com a distância da esposa e do filho nessas datas?
Minha família ficará hospedada num hotel-
fazenda por 2 semanas. Estaremos perto, só que eles curtindo as férias e eu trabalhando. Após o término do programa, em fevereiro, teremos tempo para outras viagens.

3 – Como é a rotina durante a apresentação de “A Fazenda”?
Durante o reality show, eu preciso ir quase todos os dias até a fazenda e lá passo horas acompanhando tudo o que acontece. Não chega a ser um confinamento completo. Afinal, estamos nos bastidores e temos liberdade de ir e vir para onde quisermos e quando for preciso. Mas não fico muito tempo longe, pois a observação é fundamental para a boa condução do programa.

4 – Essa nova temporada é muito diferente da primeira?
As mudanças não são muitas, mas são importantes. Além da decoração nova, uma banheira de ofurô, instalada perto da piscina, e alguns novos animais. Entre eles três porcos, dois coelhos e um casal de avestruz que darão mais trabalho aos participantes. Dessa vez, “A Fazenda” também tem mais tecnologia a serviço do telespectador, já que contamos com 42 câmeras, seis a mais do que na primeira temporada. E, para aqueles que são apaixonados pelo programa, oferecemos o pay-per-view pela Telefônica e pela TVA – “A Fazenda 24 Horas”.
5 – Como você avalia seu desempenho no comando de “A Fazenda”?
Fui convidado para apresentar “A Fazenda” e aceitei porque gostei do formato e acho que um reality feito e apresentado com seriedade, sem manipulação, com total transparência, só tem a acrescentar em minha carreira. Se, antes de “A Fazenda” eu era um apresentador de revista eletrônica (“Hoje em Dia”), talk show (“Entrevista Imprevista”, na “Record News”) e game de pergunta e resposta (“O Jogador”), agora sou tudo isso e mais ainda: apresentador de reality shows. Isso é o que vale. Versatilidade é fundamental na televisão e o importante é agregar funções e especializações.6 – Como lidou com as críticas ao modo como comanda o programa?
Respeito os críticos e considero algumas observações, mas, sinceramente, sigo aquilo que a direção do programa e da “Record” me dizem. Todos os apresentadores recebem críticas. Isso faz parte do jogo e nunca ouvi falar de algum que tenha desistido de fazer o melhor por causa disso. A crítica, quando feita com bom senso e equilíbrio, é sempre bem-vinda. Quando há excesso de adjetivação e distorções, e a crítica é sistemática ou sem fundamento, não tem valor.

7 – Você acredita que precisa melhorar na condução do programa?
Naquilo que acho que deveria melhorar, me aprimorei durante a primeira temporada. Aliás, quem assistiu ao reality até a grande final percebeu a minha evolução e a evolução geral do programa. Mas, com certeza, havendo mais temporadas, estarei melhor. A prática nos leva ao aprimoramento.

8 – A nova temporada terá o mesmo desempenho da primeira?
Trata-se de pessoas famosas que nunca foram submetidas ao confinamento. O que elas mostrarão e como se comportarão na fazenda é uma incógnita. Eis aí o motivo das pessoas gostarem tanto desse tipo de
programa: a imprevisibilidade.

9 – Como ficou a situação após o atrito que teve ao vivo com o ator Dado Dolabella, vencedor da primeira temporada?
Nunca achei ter feito algo errado naquela discussão e repetiria tudo. Gosto muito dele e sempre nos tratamos como amigos. Durante o programa, convivemos com a intimidade de cada participante e criamos um laço de amizade. O Dado, assim como a maioria dos outros participantes, amadureceu durante o reality e tenho certeza de que contribuí para isso acontecer.

10 – O que você acredita que poderá levar da experiência no reality show, caso volte ao “Hoje em Dia”?
São programas diferentes, com modos diferentes de apresentação. Sou o mesmo Britto Jr., mas sigo a proposta de cada programa. Trabalhar com televisão é um processo gradativo e de aproveitamento das oportunidades. Sou muito agradecido pelas portas que a “Record” vem abrindo para mim, e “A Fazenda”, sem dúvida, é uma delas.

ENTREVISTAS: Francisco Marcelo da Silva - as Favelas são patrimônios

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Dá para apresentar Francisco Marcelo da Silva como geógrafo, um especialista em desenvolvimento territorial que trabalha para melhorar as condições de comunidades carentes no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. Ele é vinculado ao Observatório de Favelas, organização social que pesquisa e propõe políticas públicas para favelas, e atua como coordenador nacional do projeto Conexão de Saberes, uma parceria com o Ministério da Educação para o financiamento de jovens universitários de comunidades carentes. Mas dá também para apresentá-lo como morador da Vila do João, uma das 16 comunidades do Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro. Ele vive a favela e analisa nesta entrevista a crise de segurança pública no Estado. Como geógrafo e como cidadão.

1 – Como vê a política de segurança pública do Governo do Rio de Janeiro?
É a política do confronto, sem planejamento, sem inteligência, sem valorização da vida, sem respeito às pessoas das comunidades pobres. Quando se entende a favela como um território de guerra, a morte do morador passa a ser aceitável, passa a ser um efeito colateral. Não tem guerra no Rio, tem confrontos entre grupos armados. São coisas diferentes. Quando se trata a favela como lugar hostil, o morador acaba criminalizado e a vida fica em segundo plano.

2 – Como vê as Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs)?
As UPPs diminuíram o índice de mortes, mas ainda precisam ser estudadas. Não sei se é legal sair do domínio de grupos armados para ficar sob domínio do Estado. Em alguns lugares agora é o policial quem diz o que você pode escutar em casa, tem câmeras vigiando o tempo todo. Isso não é cidadania. Para o morador que vive a violência, qualquer coisa é melhor que o confronto, que tiro. Ele escolhe o menos pior, mas daí a dizer que ele está satisfeito? As UPPs são medidas paliativas, não resolvem o problema.
3 – O que poderia ser feito?
Não existe solução mágica, existe investimento a longo prazo. Para o domínio do Estado não virar ditadura, é preciso cidadania. São necessárias políticas assistenciais, segurança, saúde, educação. As pessoas precisam se sentir integrantes da cidade e ter os direitos respeitados. É preciso investir em inteligência, qualificação do policial, trabalhar a questão dos direitos humanos. A gente tem visto cada coisa grotesca. O caso do AfroReggae, por exemplo.

4 – Você fala da omissão na morte de Evandro João da Silva?
Sim, aquilo foi bizarro. Esse tipo de polícia existe, infelizmente. Não é regra, mas quando a gente vê um caso desses, dá para imaginar o que sente o morador de um complexo de favelas. Imagina como é a relação com a polícia? O morador é contra polícia? Não. Eu sou contra? Não, mas quero outra polícia, não a que assalta o ladrão e não socorre a vítima.

5 – E o investimento em armas?
Vejo isso com pesar e receio. Eu moro aqui e sei que essas armas serão usadas aqui. Quem vai sofrer as consequências somos nós. Para que se fabrica um fuzil em pleno século 21? Não é para guerra. O Governo gasta uma grana, continua investindo na lógica do confronto e quem paga o pato são os moradores.

6 – Muitos viram vítimas, não?
A Maré tem 140 mil pessoas e milhares de casas de reboco. Uma arma dessas perfura tijolos facilmente. Em tiroteio, não tem bala perdida, essa bala encontra alguém, a família de alguém. O número de óbitos nos últimos 4 meses foi muito alto. São jovens negros que poderiam estar estudando e contribuindo para o crescimento das favelas, ajudando a melhorar as condições de vida de todos. Existem outras formas de combater o tráfico. É só trabalhar
com inteligência.

7 – Controle de movimentação financeira?
Exatamente. Que dinheiro é esse? Não dá para imaginar que uma favela como a da Maré movimenta milhões. Se fosse assim, eu moraria em uma casa enorme, linda. Essa grana do tráfico mundial não entra na favela. Uma pequena parte passa por aqui. Concentram a violência na favela para tirar o foco. A polícia poderia combater a exportação de drogas, a importação de armas, acompanhar a movimentação financeira, verificar quem são os empresários envolvidos. Mas não. Gasta-se milhões com helicópteros e carros blindados. O Caveirão é uma aberração.

8 – Aberração?
É. Para ter uma ideia, o Caveirão não tem espaço para levar ninguém preso. O cara compra um carro blindado para entrar em um confronto e não levar ninguém preso. Ou seja, ele só entra para matar. Só que a gente não tem pena de morte no Brasil. Os carros têm um sistema de som e passam provocando as pessoas, tentando incitar os bandidos, chamam disso e daquilo. São policiais sem o menor preparo, sem a menor formação para um papel tão importante quanto é o de agente de segurança. Imagina como fica a imagem desse policial na favela? Você perde todo respeito.

9 – E o que dizer da Olimpíada?
Quando se fala em Olimpíada, é importante pensar qual legado ficará para a cidade e para as favelas. É importante pensar a favela como um patrimônio e parar de achar que é problema. Não é. Se for ver, na área de habitação, por exemplo, as favelas podem ser modelo, virar referência. Quando se pensa em cidades com grande circulação, grande densidade e poucas possibilidade de expansão, na favela há varias soluções. Dá para estudar a fundo isso. É só ver a verticalização ou a construção de lajes, estratégias desenvolvidas pelos moradores para melhoria das condições de vida. O que é a laje? É condição de lazer.

10 – Uma cidade em que o pobre não está na periferia é mais democrática?
Sim, existe integração da favela com bairros ricos. Se a gente tivesse uma guerra como os jornais dizem, esses bairros teriam sido invadidos. O povo gosta da cidade. Temos que pensar outro modelo, um em que o morador de outros bairros se sinta à vontade para ir na favela e vice-versa. Aí, seria a Cidade Maravilhosa mesmo. Aliás, o que seria do Rio sem Cartola, sem Bezerra da Silva, sem os Romários da vida? A favela tem comércio, cultura. Como valorizar isso? Não é comprando Caveirão, tratando a gente como estranho. Os muros entram na lógica de ver favela como problema. Problema você isola. Essa lógica protege quem? Só é cidadão quem passa de carro na avenida?


Por Daniel Santini
daniel.santini@folhauniversal.com.br

Francisco Batista Júnior - Um diagnóstico para a saúde

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Por Gisele Brito
gisele.brito@folhauniversal.com.br


Francisco Batista Júnior é presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), órgão que tem a função de promover a participação da sociedade na fiscalização e criação de políticas de saúde pública no País. Nesta entrevista, ele fala sobre as dificuldades do Sistema Único de Saúde (SUS) que, na teoria, é um grande avanço, mas enfrenta muitos problemas.

1 – Como funcionava o atendimento à saúde antes do SUS, criado há
21 anos?
Tínhamos um sistema que só atendia a população formalmente empregada, que pagava pelo atendimento. Com o SUS, isso se alterou. O atendimento passou a ser um direito universal, integral, sagrado. Passamos a ter um sistema com políticas definidas, com a possibilidade da participação da população nos conselhos de saúde. Nós temos um sistema de vacinação, um programa de transplante de órgãos e outras coisas que são exemplos. O trabalho da vigilância sanitária, garantindo qualidade da alimentação, é incrível e pouca gente sabe que tudo isso é SUS.

2 – Se o SUS é um avanço, porque a saúde pública ainda é um problema?
O SUS apontou para a possibilidade de contrapor essa lógica de saúde como comércio. Foi criado na contramão da história. As mazelas do sistema são consequência de não termos tido competência, oportunidade e condição de implantá-lo de acordo com sua legislação.

3 – Explique melhor.
Por exemplo, no financiamento. Na prática, temos a emenda constitucional 29, que estabelece que nenhum estado pode investir menos de 12% das suas receitas em saúde e existem 16 estados, os mais ricos da federação – e o próprio Governo Federal – que descumprem isso. Outro grande problema é o que chamamos de modelo de atenção à saúde. Quando o SUS foi aprovado, entendemos que é dever disponibilizar um sistema de saúde, e não um de tratamento de doenças.
4 – E qual a diferença?
O sistema de tratamento de doenças é inviável do ponto de vista financeiro e desumano do ponto de vista moral. As pessoas têm direito a cuidar da sua saúde, antes que apareça a doença. Mas, apesar de algumas experiências pontuais e importantes, nós ainda temos um sistema de tratamento de doenças. Isso acontece por causa do financiamento insuficiente e porque, mesmo quando existe dinheiro, os gestores fazem a coisa de forma errada. Ao invés de estruturar o sistema de prevenção, eles preferem construir mais hospitais, comprar serviços privados para atender a população. Essa lógica é muito perversa, e aí, aqueles que procuram o sistema para se prevenir, não conseguem.
5 – E a privatização do SUS?
Aí entra o terceiro grande problema: a sensível privatização do sistema, que acontece através do sucateamento do que é público e da compra cada vez mais exacerbada de serviços privados. O que o Governo está fazendo em São Paulo é um descalabro, entregando hospitais públicos para empresas privadas administrarem, com recursos públicos e com absoluta autonomia. Isso sem qualquer fundamentação jurídica. Aliás, o Conselho Nacional de Saúde acabou de deliberar sobre o Governo do Distrito Federal, que fez coisa similar com o Hospital Santa Maria. Eles chamam isso de parceria público-privada, de modernização da gestão. Através da privatização você burla a legislação e estabelece uma relação que geralmente tem um custo muito maior para a população.

6 – Construir hospitais é a melhor estratégia para melhorar a saúde?
Não. O que o Governo pode fazer é criar uma cultura de preservação da saúde. Nós poderíamos transformar a realidade do povo brasileiro se deflagrássemos um grande projeto de acompanhamento de hipertensão e diabete, diagnósticos e tratamentos precoces. Isso não é feito porque não há decisão política do Governo e também porque pensar nisso é mudar a cultura que acredita que saúde é hospital, médico e medicamento. E não é isso. Significa você reconhecer que é preciso ter nutricionistas, fisioterapeutas, farmacêuticos, que são tratados como menos importantes. Mas não existe tratamento de hipertensão sem um fisioterapeuta, sem um psicólogo.

7 – E os profissionais de saúde, como ficam nesse cenário do SUS?
Hoje, salários baixos, para os médicos, são exceções. É claro que existem estados e prefeituras pagando salários miseráveis, mas hoje você não encontra médicos no interior ganhando menos de R$ 8 mil. Agora, quanto aos demais profissionais de saúde, aí a situação é mais grave. Eles não têm tido o reconhecimento que deveriam. A consequência é um profundo desestímulo, que se traduz na falta do compromisso.

8 – Fale sobre a importância dos Conselhos de Saúde?
Não existe nenhum país no mundo com uma proposta de democracia participativa numa política pública de saúde, igual a do Brasil. Nada de relevante pode acontecer sem que o conselho de saúde influencie.

9 – Na prática é assim?
É óbvio que é complicado em um País como o Brasil, com a cultura autoritária, privatizante, patrimonialista. Democracia você não consegue através de lei. Uma proposta fantástica como essa não avança porque, por um lado, tem essa cultura autoritária e, por outro, a sociedade civil não conseguiu entender que é um direito dela inter-
ferir, participar.

10 – Qual é o investimento ideal para a saúde?
Se a emenda constitucional 29 for regulamentada, teremos, no próximo ano,
R$ 64 bilhões. Para por em prática as propostas de acabar com a dependência da rede privada e atender toda a demanda da população, precisamos de mais R$ 30 bilhões.

Entrevista: Duda Yankovich - Sem medo de bater Por Andrea Dip andrea.dip@folhauniversal.com.br Aos 33 anos de idade, Duda Yankovich já viveu quatro

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Por Andrea Dip
andrea.dip@folhauniversal.com.br


Aos 33 anos de idade, Duda Yankovich já viveu quatro guerras, todas envolvendo seu país, a Sérvia, ex-república iugoslava. É faixa preta em karatê, quatro vezes campeã nacional de
kickboxing, fez filmes e comerciais de tevê e já foi guarda-costas e segurança de boates em Belgrado, na Sérvia. Há 10 anos no Brasil, é campeã mundial de boxe e sempre levanta a bandeira verde e amarela em suas vitórias. Figura polêmica por falar o que pensa e nocautear as adversárias de unhas pintadas e saia no ringue, Duda só vê uma explicação para tudo isso: “Nunca lidei bem com o ‘você não pode fazer isso’.”


Eu sempre fui muito moleca. Mas não era encrenqueira. Sempre me envolvi com várias lutas – karatê, kickboxing, boxe. Mas, na verdade, eu sempre busquei esportes diferentes. Eu nunca pude ouvir “você não pode fazer isso”. No meu país, se você é mulher, nasce para procriar, cuidar da casa. Mas quando eu tinha 10 anos de idade eu já sabia que não iria viver aquela vida. Comecei a treinar karatê e aos 15 eu fui para a capital treinar pela seleção.

2 – Como conseguiu se sustentar?
Fui contratada pela seleção de karatê, mas não me bancavam. Trabalhei em banca de jornal até que entrei em uma escola de segurança, onde tinha treinamento de tiro, judô, mas a aula mais importante era a de comportamento. Lutar boxe é muito difícil. Não é briga de rua. Briga de rua é instinto. Se um carro atropela o filho de uma mulher, com a descarga de adrenalina ela levanta o carro e mata três caras de uma vez. Isso é instinto. Luta de boxe é uma coisa totalmente diferente.
3 – Como você veio parar aqui?
Eu já tinha deixado o karatê, em que era faixa preta, por uma decepção com o esporte e fui para o kickboxing. Em 1999, começou a quarta das guerras que vivi. A gente não treinava mais e as academias viraram esconderijos. Eu sempre me perguntei como os iraquianos nasciam e viviam a vida toda no meio de uma guerra, mas eles não conhecem outra vida. Você se acostuma. Tem fila para comer, para comprar, e você não sabe quando tudo aquilo vai terminar.

4 – Você morava sozinha?
Sim, desde os 15 anos. Quando a guerra acabou, durante 1 ano não aconteceu nada na minha vida. Porque o país estava em recuperação, não tinha dinheiro para nada, esportes e artes foram apagados. Eu já tinha vindo para o Brasil competir e conheci umas pessoas. Aí, vim fazer alguns contatos – não
pretendia ficar. Estou aqui há 10 anos.

5 – Você fala muito bem português. Teve aulas?1 – Como foi a sua infância?
Aprendi sozinha, logo nos primeiros meses. Aí, comecei a treinar e dar aulas de kickboxing. Resolvi competir e fui bicampeã brasileira, pan-americana e sul-americana. Mas faltavam mulheres. Aí, fui chamada para lutar boxe em um programa de televisão. Quando eu cheguei lá, não acreditei no número de mulheres que havia no boxe. Eu ganhei, mas foi na raça. Pedi para ser treinada pela seleção masculina de boxe e me profissionalizei, disputei os mundiais e ganhei, sempre pelo Brasil.

6 – E é difícil esse caminho?
Para a mulher é mais fácil do que para o homem. Até pela quantidade de boxeadores. Mas você tem que fazer as coisas certas, ir aos poucos, se fazer conhecido.
7 – Mas você é a primeira boxeadora a ser reconhecida pelo público que não conhece boxe no Brasil.
Sim. E algumas pessoas dizem que eu ganho lutas porque visto uma saia. Aí eu digo: “É isso aí, eu pinto as unhas, entro no ringue e a outra pessoa cai.”

8 – As meninas que estão começando são enganadas por empresários?
Sim, é só o que acontece. Por isso que não há lutas. Por isso, o esporte não tem divulgação. Já vi uma ótima boxeadora, porém inexperiente, quase aceitar lutar por R$ 500, correndo o risco de ser nocauteada. Eu a convenci a não assinar e pagaram mais. Já vi meninas desenharem o nome no contrato porque não sabiam ler ou escrever. É difícil para mim, inclusive. Me criticaram quando eu coloquei a bandeira da Sérvia depois de uma luta, mas nesse dia meu avô havia falecido e eu fiz uma homenagem. Desde o primeiro dia que eu pisei neste país eu defendo a bandeira do Brasil. Eu não sou naturalizada ainda, depois de 10 anos, mas eu defendo a bandeira brasileira. Eu tinha plano de saúde, tinha patrocínio e nesse momento não tenho nada disso. Mas vou ganhar tudo de novo.

9 – Você perdeu esse apoio por causa do seu ex-empresário?
As besteiras que ele fez trouxeram consequências. Sabe por que as pessoas morrem no boxe aqui na América Latina? Porque quando um boxeador é nocauteado, é proibido de lutar por 6 meses a 1 ano. Só que o atleta ganha R$ 300, com filho, família. Então, ele falsifica o atestado médico para fazer outra luta e ganhar mais R$ 400. Aí vai lutando, uma atrás da outra, e morre no ringue.

10 – A inclusão do boxe feminino na Olimpíada deve mudar alguma coisa?
Demorou, né? Já tinha feminino de karatê, judô. Acho que melhora, mas vai demorar. Eu aposto em algumas meninas, se alguém investir nelas. Se pagar supletivo, mandar para lutar lá fora, fizer intercâmbios. Mas, se não houver investimento, nem adianta cobrar boa performance nos Jogos.


Por Andrea Dip
andrea.dip@folhauniversal.com.br


Aos 33 anos de idade, Duda Yankovich já viveu quatro guerras, todas envolvendo seu país, a Sérvia, ex-república iugoslava. É faixa preta em karatê, quatro vezes campeã nacional de
kickboxing, fez filmes e comerciais de tevê e já foi guarda-costas e segurança de boates em Belgrado, na Sérvia. Há 10 anos no Brasil, é campeã mundial de boxe e sempre levanta a bandeira verde e amarela em suas vitórias. Figura polêmica por falar o que pensa e nocautear as adversárias de unhas pintadas e saia no ringue, Duda só vê uma explicação para tudo isso: “Nunca lidei bem com o ‘você não pode fazer isso’.”


Eu sempre fui muito moleca. Mas não era encrenqueira. Sempre me envolvi com várias lutas – karatê, kickboxing, boxe. Mas, na verdade, eu sempre busquei esportes diferentes. Eu nunca pude ouvir “você não pode fazer isso”. No meu país, se você é mulher, nasce para procriar, cuidar da casa. Mas quando eu tinha 10 anos de idade eu já sabia que não iria viver aquela vida. Comecei a treinar karatê e aos 15 eu fui para a capital treinar pela seleção.

2 – Como conseguiu se sustentar?
Fui contratada pela seleção de karatê, mas não me bancavam. Trabalhei em banca de jornal até que entrei em uma escola de segurança, onde tinha treinamento de tiro, judô, mas a aula mais importante era a de comportamento. Lutar boxe é muito difícil. Não é briga de rua. Briga de rua é instinto. Se um carro atropela o filho de uma mulher, com a descarga de adrenalina ela levanta o carro e mata três caras de uma vez. Isso é instinto. Luta de boxe é uma coisa totalmente diferente.
3 – Como você veio parar aqui?
Eu já tinha deixado o karatê, em que era faixa preta, por uma decepção com o esporte e fui para o kickboxing. Em 1999, começou a quarta das guerras que vivi. A gente não treinava mais e as academias viraram esconderijos. Eu sempre me perguntei como os iraquianos nasciam e viviam a vida toda no meio de uma guerra, mas eles não conhecem outra vida. Você se acostuma. Tem fila para comer, para comprar, e você não sabe quando tudo aquilo vai terminar.

4 – Você morava sozinha?
Sim, desde os 15 anos. Quando a guerra acabou, durante 1 ano não aconteceu nada na minha vida. Porque o país estava em recuperação, não tinha dinheiro para nada, esportes e artes foram apagados. Eu já tinha vindo para o Brasil competir e conheci umas pessoas. Aí, vim fazer alguns contatos – não
pretendia ficar. Estou aqui há 10 anos.

5 – Você fala muito bem português. Teve aulas?1 – Como foi a sua infância?
Aprendi sozinha, logo nos primeiros meses. Aí, comecei a treinar e dar aulas de kickboxing. Resolvi competir e fui bicampeã brasileira, pan-americana e sul-americana. Mas faltavam mulheres. Aí, fui chamada para lutar boxe em um programa de televisão. Quando eu cheguei lá, não acreditei no número de mulheres que havia no boxe. Eu ganhei, mas foi na raça. Pedi para ser treinada pela seleção masculina de boxe e me profissionalizei, disputei os mundiais e ganhei, sempre pelo Brasil.

6 – E é difícil esse caminho?
Para a mulher é mais fácil do que para o homem. Até pela quantidade de boxeadores. Mas você tem que fazer as coisas certas, ir aos poucos, se fazer conhecido.
7 – Mas você é a primeira boxeadora a ser reconhecida pelo público que não conhece boxe no Brasil.
Sim. E algumas pessoas dizem que eu ganho lutas porque visto uma saia. Aí eu digo: “É isso aí, eu pinto as unhas, entro no ringue e a outra pessoa cai.”

8 – As meninas que estão começando são enganadas por empresários?
Sim, é só o que acontece. Por isso que não há lutas. Por isso, o esporte não tem divulgação. Já vi uma ótima boxeadora, porém inexperiente, quase aceitar lutar por R$ 500, correndo o risco de ser nocauteada. Eu a convenci a não assinar e pagaram mais. Já vi meninas desenharem o nome no contrato porque não sabiam ler ou escrever. É difícil para mim, inclusive. Me criticaram quando eu coloquei a bandeira da Sérvia depois de uma luta, mas nesse dia meu avô havia falecido e eu fiz uma homenagem. Desde o primeiro dia que eu pisei neste país eu defendo a bandeira do Brasil. Eu não sou naturalizada ainda, depois de 10 anos, mas eu defendo a bandeira brasileira. Eu tinha plano de saúde, tinha patrocínio e nesse momento não tenho nada disso. Mas vou ganhar tudo de novo.

9 – Você perdeu esse apoio por causa do seu ex-empresário?
As besteiras que ele fez trouxeram consequências. Sabe por que as pessoas morrem no boxe aqui na América Latina? Porque quando um boxeador é nocauteado, é proibido de lutar por 6 meses a 1 ano. Só que o atleta ganha R$ 300, com filho, família. Então, ele falsifica o atestado médico para fazer outra luta e ganhar mais R$ 400. Aí vai lutando, uma atrás da outra, e morre no ringue.

10 – A inclusão do boxe feminino na Olimpíada deve mudar alguma coisa?
Demorou, né? Já tinha feminino de karatê, judô. Acho que melhora, mas vai demorar. Eu aposto em algumas meninas, se alguém investir nelas. Se pagar supletivo, mandar para lutar lá fora, fizer intercâmbios. Mas, se não houver investimento, nem adianta cobrar boa performance nos Jogos.

ENTREVISTA: Elizabeth Mendes Paulino - “O medo alimenta A violência“

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Por Carlos Antonio
redacao@folhauniversal.com.br


Em dezembro de 2003, quatro jovens saíram de casa para o que prometia ser uma noite de diversão no Via Show, casa de espetáculos na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro, e nunca mais voltaram. Seus corpos só foram encontrados 6 dias depois. Eles foram torturados e executados com tiros de fuzil na cabeça por policiais militares que trabalhavam como seguranças da casa. Passados quase 6 anos, Elizabeth Medina Paulino, mãe de Rafael, de 18 anos, e Renan, de 13, continua lutando para que o crime, igual a tantos outros, não se transforme em mais um número da estatística sobre a violência policial.

6 – Você tem medo de que a sua luta também a transforme em uma vítima da violência?
Eu só tenho medo é de não ver a justiça ser feita. De meus filhos terem sido mortos em vão, de virarem número. Tenho muito medo de que outros jovens sejam assassinados como meus filhos foram. E tenho muito medo de que esses assassinos continuem matando. Esses são os medos que eu tenho.

7 – Que conselho daria a quem passa pelo que você passou?
Quando meus filhos foram mortos, uma mãe deu entrevista e disse que se sentia culpada pela morte dos meus filhos porque o filho dela tinha sido morto na mesma casa de shows 1 mês antes e ela se calou por achar que não daria em nada. Ela tinha medo das represálias com parentes e se calou. Peguei isso como exemplo para tentar evitar que outras mães passem pelo que estou passando. O silêncio das vítimas só estimula mais a violência.

8 – Como é a vida sem
seus filhos?
Minha casa está vazia. Renan tinha 13 anos e foi à casa de shows para festejar a aprovação para a oitava série. Eu nunca tinha negado nada a ele. Rafael tinha 18 anos e o sonho de ser juiz. Ambos eram evangélicos e eu confiava plenamente nos dois. Jamais imaginaria que iria perder os dois por causa da brutalidade policial.

9 – No que a morte deles pode contribuir para uma sociedade melhor?
Quando eu ouvia falar que jovens eram mortos por policiais, eu pensava: “esses garotos devem ter envolvimento com drogas”, essas coisas. Com a morte dos meninos, descobri que a coisa não funciona assim. Qualquer um pode ser vítima de maus policiais. Esse é o pensamento que procuro transmitir para a sociedade: a violência policial está muito grande e a gente desconhece isso até que se torna vítima dela. E nós tomamos conhecimento da violência policial da pior
forma possível.

10 – Como você tem buscado forçar para suportar
a dor?
Com Deus tudo fica mais fácil, até as coisas que parecem muito difíceis de serem suportadas. A mídia diz que vítima é quem morre, mas eu digo que as vítimas são as que ficam. E a fé é que me ajuda a prosseguir nessa luta.1 – O que é mais difícil para alguém que perdeu os filhos por causa da violência policial?
Além da dor, que não é fácil de suportar, existe a luta para se fazer justiça, colocar os culpados na cadeia. E isso se torna muito mais difícil quando os assassinos são policiais. O corporativismo é muito grande, o que se soma às dificuldades naturais de se fazer justiça no Brasil.

2 – Você acha que se não continuasse lutando o assunto já teria sido esquecido?
Com certeza. Meus filhos seriam apenas mais um número como tantos outros que já morreram vitimados por violência policial. E é justamente isso que a gente está tentando mostrar no livro “Auto de Resistência” e no documentário “Luto como mãe”. Rafael e Renan não eram números. Eles tinham sonhos e história. Se desistimos, as mortes são banalizadas, como acontece por aqui. Afinal, um dia morre um, noutro dia morrem mais dois. A nossa luta é para que a sociedade encare esses assassinatos com o horror como precisam ser encarados.
3 – Você enxerga progressos em sua luta? Afinal, já passaram diferentes governos.
E muitos secretários de segurança. A coisa já foi bem pior. As mães dos filhos mortos na tragédia de Acari dizem hoje que não tinham consciência de que poderiam brigar por justiça, que poderiam chegar ao governador. Elas não tinham essa alternativa. Hoje, as pessoas já sabem que podem ir mais longe em defesa dos
seus direitos .

4 – Você tem acompanhado o processo de perto?
Eu acompanho tudo. Vou à delegacia responsável pelo caso e conheço cada letra dos inquéritos abertos sobre o assassinato dos meus filhos. Graças a Deus, ainda tenho tempo, saúde e recursos para continuar lutando, para não ver mais um crime desse tipo ficar impune. Enquanto tiver forças, eu vou lutar.
5 – O que achou das penas aplicadas aos policiais envolvidos
no caso?
Imagine se viesse uma pessoa e, sem ter motivo, torturasse e matasse seus filhos? Quantos anos o senhor acha que ele deveria ficar na cadeia? Essa pergunta não tem resposta. Eles pegaram 68 anos e não vão ficar presos nem a metade desse tempo. Por enquanto, só dois estão cumprindo pena e dois estão respondendo em liberdade. Nossas leis são falhas, nossa Justiça é falha e nossa luta também é por esse lado. É para que se tenha uma Justiça menos injusta no País.

EM BUSCA DE UM ÍDOLO - RODRIGO FARO

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Por Ivonete Soares
redacao@folhauniversal.com.br


Ele começou a carreira ainda criança, aos 9 anos, quando foi convidado para uma campanha publicitária. E não parou mais. Carismático, o paulistano Rodrigo Faro, aos 35 anos, é considerado um artista completo. E não é para menos. O currículo dele acumula espetáculos teatrais, 11 novelas e participação de 1 ano no grupo musical Dominó, entre outros trabalhos. Atualmente, apresenta dois programas de grande audiência na “Rede Record”: “O Melhor do Brasil”, que vai ao ar nas tardes de sábado e, desde o último dia 18, a segunda temporada de “Ídolos”, reality show de novos talentos, nas noites de terça e quarta. Casado com a modelo Vera Viel e pai de duas meninas, Maria e Clara, de 1 e 4 anos, ele se diz realizado. “Estou vivendo o melhor momento da minha vida”, enfatiza.

1 – Como foi o início da
sua carreira?
Comecei em 1982, ainda criança, meio que na brincadeira. Em princípio, fazendo propagandas. Minha mãe me levava aos ensaios e eu acabei decidindo seguir a carreira artística. Mas, lembro-me de que ela só me deixou prosseguir com uma condição: que fosse bem nos estudos e que não tirasse notas vermelhas. A partir dali, as oportunidades e os trabalhos foram surgindo – novelas e espetáculos teatrais – e eu não parei mais.

2 – E sua passagem pelo grupo Dominó, sucesso juvenil nos anos 80 e 90, como aconteceu?
Eu já tinha cantado em musicais no teatro, mas a profissionalização se deu mesmo com a minha entrada no grupo, na década de 90, substituindo o Afonso Nigro. Fiquei 1 ano. Foi ótimo. Um período muito bacana, que considero um laboratório para a minha carreira como cantor. Viajei pelo Brasil inteiro e aprendi muita coisa boa.

3 – Como é apresentar dois grandes programas da “Record”: “O Melhor do Brasil” e “Ídolos”?
Inicialmente, fui convidado para apresentar “Ídolos”, no ano passado, mas, com o desligamento do Márcio (Garcia) do “O Melhor do Brasil”, me chamaram para substituí-lo. Na verdade, foi um voto de confiança que a direção da emissora depositou em mim e eu agarrei com todas as forças. Assumi essa responsabilidade, dando o melhor para que o programa crescesse ainda mais. E foi o que aconteceu. Hoje, graças a Deus, é um sucesso, com quadros divertidos e para toda a família. Com o “Ídolos”, não foi diferente. É maravilhoso conduzir os dois programas.

4 – O reality show “Ídolos” põe à prova o talento das pessoas, mexe com o sentimento e os sonhos delas. Como lida com isso?

Esse programa é pura emoção. Fala de sonhos, música. É um reality show e, como tal, precisa também de um apresentador verdadeiro, que mostre o que está acontecendo de fato, e essa tem sido a minha postura. Eu vibro com a alegria dos candidatos e, quando se frustram, para mim também é uma frustração enorme. Sempre acabo me envolvendo, não tem jeito.

5 – E quais são os seus ídolos?
No esporte, Ayrton Senna sempre foi e será. Na música, gosto muito de Djavan e Stevie Wonder. Nas artes, eu admirava Paulo Autran. Curto demais também Arlete Salles, Laura Cardoso e o apresentador Augusto Liberato, o Gugu, que, na minha opinião, é o melhor da tevê brasileira. Agora, terei a honra de dividir o final de semana com ele.

6 – Prestes a completar 36 anos, você se diz plenamente realizado, na melhor fase da vida. Por quê?
Estou na melhor fase profissional e pessoal, com uma família abençoada, duas filhas maravilhosas e uma carreira caminhando de vento em popa. Por isso, eu não tenho coragem de pedir mais nada. Só agradecer e, claro, trabalhar intensamente para que essa fase perdure.

7 – Depois de se consagrar como ator e fazer inúmeras novelas, você não tem atuado como antes. Não sente falta?
Sinceramente, não. Estou muito realizado apresentando os programas. É claro que, eventualmente, faço uma participação ou outra, como aconteceu em “Chamas da Vida” e, recentemente, na estreia de “Bela, a Feia” (ambas da “Record”), mas voltar a atuar, acho que não. O meu foco, daqui para frente, é seguir apresentando.

8 – Como é o Rodrigo fora
dos holofotes?
Um verdadeiro aprendiz. Alguém que vive com o pensamento positivo. Sou movido pelo amor: à vida, à profissão, à família e, sobretudo, a Deus. Um pai e um marido presente, que vive intensamente isso, sempre bem-humorado e, como todo ser humano, com alguns defeitos, porém, sempre tentando corrigi-los para viver melhor.

9 – Qual a importância da família para você?
No meio artístico, a família está meio em desuso, o que é uma grande infelicidade. Mas eu posso dizer que existem, sim, relacionamentos sólidos e felizes, e não falo de forma forçada. Falo do que vivo, pois minha família é meu maior tesouro. Não há nada mais bacana do que, após um dia de trabalho, chegar em casa e encontrá-la ali, me esperando. É maravilhoso.

10 – Do que você tem medo?
Não tenho medo de nada. Sempre antes de sair de casa faço uma oração e essa é a minha grande proteção. Quando você tem essa fé e está sempre de bem com a vida, automaticamente, só atrai coisas boas. Eu provo isso na prática, com a minha vida.

ENTREVISTA: Ricardo Tadeu da Fonseca - DERROTA DO PRECONCEITO

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Em 1991, depois de deixar para trás cerca de 5 mil candidatos, Ricardo Tadeu da Fonseca, de 50 anos, tornou-se o primeiro procurador cego do Ministério Público do País. Quase 18 anos depois, Fonseca é agora o primeiro juiz portador de deficiência visual. Ele foi nomeado, no último dia 16, desembargador do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 9ª Região, em Curitiba (PR). Ele perdeu completamente a visão aos 23 anos e, além das dificuldades para conseguir o primeiro emprego, chegou a ser afastado do processo seletivo do TRT de São Paulo, com a “justificativa de que uma pessoa cega não poderia ser juiz”. Fonseca também é um dos responsáveis pela elaboração do texto da Convenção dos Direitos de Pessoas com Deficiência.

1 – Como avalia este momento da sua carreira profissional?
Depois de 18 anos de trabalho no Ministério Público do Paraná, decidi entrar nesta empreitada para realizar um sonho de atuar na magistratura. Era um desejo que se manifestava desde o início da minha carreira profissional. Foi uma honra estar entre os indicados pelo Tribunal Regional do Trabalho para que o presidente Lula escolhesse quem ocuparia o cargo. Essa indicação já foi uma aceitação da ideia dos próprios juízes do tribunal de que uma pessoa com deficiência visual pode exercer a magistratura. É um sinal de progresso entre as relações sociais no Brasil.

2 – Já havia tentado entrar para o Tribunal Regional do Trabalho?
Eu havia tentado entrar para o TRT de São Paulo em 1990. Infelizmente, não pude concluir o curso porque foi antecipado meu exame médico e fui afastado do concurso antes da conclusão dele com o argumento de que uma pessoa cega não poderia ser juiz. Há um precedente do Supremo
Tribunal Federal, de 1984, que diz que uma pessoa cega não pode ser juiz. Hoje, temos outra realidade constitucional e, mais recentemente, tivemos a ratificação da Convenção Internacional sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência da Organização das Nações Unidas (ONU), que foi o primeiro tratado internacional que o Brasil incorporou com força de norma constitucional. Isso mudou as coisas.

3 – Quando perdeu a visão?
Tive baixa visão até os 23 anos por causa de uma paralisia cerebral que sofri quando nasci. Mas deixei de enxergar totalmente quando cursava o terceiro ano da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

4 – E como continuou a faculdade?
Os meus amigos da turma de 1984 gravavam as matérias em fitas cassetes e eu fazia as provas oralmente. Foram bons colegas. A minha formação como advogado foi produto da classe. Precisei de um tempo de adaptação, mas depois recuperei meu desempenho fazendo matérias suplementares. Acabei me formando 1 ano depois que o estimado, sempre com o apoio dos colegas.

5 – De que maneira se escolarizou?
Sempre estudei em escolas comuns, mas tinha métodos de apoio diferenciados. A professora, por exemplo, escrevia à mão e com letras maiores os textos datilografados. Fiz o vestibular com uma gravação em fita. Na primeira fase, alguém marcava as respostas para mim e, na segunda, eu mesmo escrevi as respostas. Sempre usei métodos especiais que deram certo.6 – Como foi a entrada no mercado de trabalho?
Foi bastante difícil. Eu já estava fazendo o primeiro curso de pós-graduação na USP, que depois emendei em um mestrado. Mesmo assim, as empresas não me contratavam quando descobriam que não enxergava. Meu primeiro emprego foi em um escritório de advocacia muito bom. Depois, passei a assessor de um juiz no tribunal de Campinas (SP) e, após um tempo, prestei o concurso para o Ministério Público do Trabalho (MPT). Nesse processo seletivo, fiquei na sexta posição entre cerca de 5 mil candidatos. Desde 1991, atuei no MP em São Paulo e em Curitiba.

7 – Como procurador, chegou a sofrer algum tipo de resistência por ser deficiente visual?
Pelo contrário. Eu fui muito bem recebido. O próprio edital do Ministério Público do Trabalho prevê o rito das provas para pessoas com deficiência visual. Em geral, o MP está muito aberto para esta questão.

8 – E como eram as audiências?
Já dirigi centenas de audiências e inquéritos com tranquilidade. Percebia a variação do tom da voz, os movimentos que a pessoa fazia, se ela estava nervosa. Nunca tive problema. É claro que sempre tinha uma pessoa ao meu lado para me ajudar, para ler os documentos e conferir informações.

9 – E o que vai precisar para exercer o trabalho de juiz no TRT?
Todos os desembargadores têm assessores e eu vou tê-los também. Vai haver um trabalho de digitalização de todos os processos aqui do tribunal. Então, vamos adotar os programas de leitura de tela do computador. O tribunal está completamente aberto e oferecendo toda a estrutura necessária.

10 – Como avalia a inclusão de deficientes no País?
Ajudei a delegação brasileira na redação do documento e no processo de ratificação da Convenção Internacional sobre Direitos de Pessoas com Deficiência, aprovado pela ONU. Nós estamos em uma fase inicial no que diz respeito à inclusão de deficientes na sociedade. Na América Latina, o Brasil é um país de vanguarda, mas, em relação ao primeiro mundo, temos muito que avançar na questão da acessibilidade de espaços físicos, da utilização da língua dos sinais nas universidades e em outros estabelecimentos. A sociedade brasileira está muito fechada para aqueles que possuem alguma deficiência intelectual também.

Por Fernando Gazzaneo
fernando.gazzaneo@folhauniversal.com.br


ENTREVISTAS: JOSÉ ROBERTO GUIMARÃES - Caçador de medalhas

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Por Guilherme Bryan
guilherme.bryan@folhauniversal.com.br


O técnico de vôlei José Roberto Guimarães, de 54 anos, é um dos poucos do mundo que já venceram duas Olimpíadas. Após atuar em equipes do Brasil e da Itália como jogador, ele conquistou a primeira vitória, em 1992, em Barcelona, na Espanha, como treinador da seleção brasileira masculina, que deu ao País a primeira medalha de ouro em esportes coletivos. A segunda conquista foi em 2008, em Pequim, na China, com a seleção feminina de vôlei. Sem se acomodar, o treinador já pensa nos próximos Jogos Olímpicos, que serão realizados em Londres (Inglaterra), em 2012, e que serão transmitidos com exclusividade pela “Rede Record”.

1 – Como você analisa o atual momento da seleção feminina de vôlei?
É um momento delicado, porque estão entrando novas jogadoras, principalmente em posições chaves. Esse é o caso do levantamento, onde tínhamos a Fofão, que foi uma das melhores levantadoras do mundo. Temos jogadoras talentosas, mas que precisam de tempo para treinar e jogar competições importantes. O grupo, no entanto, mantém a mesma base da Olimpíada passada.

2 – As conquistas deste ano incentivam ou o favoritismo pode causar uma acomodação da equipe?
Nos últimos 4 anos, aprendemos que, mesmo com um grande time, tudo pode acontecer. Participar de competições dá a possibilidade de jogar com as grandes seleções do mundo. Lógico que temos que tentar ganhar, mas precisaremos passar por todas as dificuldades, principalmente na Olimpíada de Londres.

3 – Qual conquista foi a mais
difícil, a da Olimpíada de 1992 ou a de 2008?
Diferente da conquista de 1992, onde não éramos os favoritos, em 2008, sabíamos que poderíamos ganhar. Nós vínhamos de uma situação difícil, que foi a Olimpíada de Atenas (Grécia), e estávamos fechando um ciclo de sucesso. Por isso, foi muito emocionante. A geração de 1992 aliou talento, técnica e versatilidade, e fez história.

4 – Em algum momento, vocês temeram a repetição do que havia acontecido em Atenas, quando o Brasil perdeu para a Rússia de virada, por 3 sets a 2, na semifinal?
Para Pequim, conseguimos montar um grupo excepcional e treinar como devíamos durante 4 anos, adquirindo experiência em mais ou menos 140 jogos internacionais. Por isso, ganhamos. Foi completamente diferente de Atenas, quando, cerca de 1 ano antes, pegamos o time de última hora, com jogadoras pedindo dispensa e com um tempo muito pequeno para trabalhar.

5 – Quais são as principais diferenças entre treinar homens e mulheres?
É muito mais fácil treinar times masculinos, pois os problemas são resolvidos de modo direto e mais rápido. Mas, hoje, eu me sinto mais integrado e tranquilo treinando times femininos, onde é preciso ter uma sensibilidade maior, dialogar e escutar mais, entender um pouco como funciona o organismo feminino e tomar diversos cuidados. O técnico do vôlei feminino precisa ser muito sensível e observador.

6 – Como você avalia a atual situação do voleibol brasileiro?
De alguns anos para cá, o vôlei virou o segundo esporte nacional. É um dos mais praticados no nosso País e tem um grande respeito do povo brasileiro. Há muita gente trabalhando para continuar entre os melhores do mundo. Mas não dá para comparar com o futebol, que no Brasil é visto quase como uma religião.

7 – Você pretende realizar algum trabalho para incentivar a prática do vôlei em escolas?
A base dos clubes sempre foi uma paixão e temos que ter um carinho muito grande por ela. Agora, houve uma perda, principalmente depois que decidiram que Educação Física não era obrigatória nas escolas. Mas acredito que as coisas no Brasil estão mudando e, quem sabe, no futuro, tenhamos um maior investimento, exatamente nas escolas e na base dos clubes, de onde vieram os grandes craques. Para isso, é preciso que o Governo ajude com incentivo fiscal.

8 – O Brasil tem hoje condições de sediar os Jogos Olímpicos de 2016?
Temos condições como povo, do qual me orgulho muito de como reage quando é solicitado para esses grandes eventos. Como organização, acho que o País daria um show. Em termos de infraestrutura, teríamos tempo hábil para fazer tudo o que é necessário para realizar uma grande Olimpíada. Mas, o que me preocupa muito é o que fica depois, ou seja, um débito muito grande.

9 – De que modo a experiência de treinador pode ajudar as pessoas em outras atividades profissionais?
De um técnico de vôlei ao presidente de uma multinacional, você sempre trabalha com pessoas. Lógico que é preciso ter conhecimentos técnicos e estar antenado com o mundo, mas também é necessário saber liderar, conhecer as estratégias para que a equipe produza mais. Portanto, a base de tudo é o relacionamento e as estratégias
utilizadas para vencer.

10 – Para um treinador tão vitorioso, o que falta ser conquistado?
Sempre falta alguma coisa: um mundial feminino, outra Olimpíada. A partir do momento em que você está num ciclo em que aparecem jogadoras novas, há uma motivação maior. Não é porque se ganhou uma competição que se fica satisfeito. É preciso trabalhar duro e sem descanso, pois, em algum lugar do mundo, sempre haverá algum maluco treinando mais do que nós. Claro que tudo pode acontecer, mas esperamos manter o voleibol brasileiro entre as melhores seleções do mundo.

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