1 – Como vê a política de segurança pública do Governo do Rio de Janeiro? É a política do confronto, sem planejamento, sem inteligência, sem valorização da vida, sem respeito às pessoas das comunidades pobres. Quando se entende a favela como um território de guerra, a morte do morador passa a ser aceitável, passa a ser um efeito colateral. Não tem guerra no Rio, tem confrontos entre grupos armados. São coisas diferentes. Quando se trata a favela como lugar hostil, o morador acaba criminalizado e a vida fica em segundo plano. 2 – Como vê as Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs)? As UPPs diminuíram o índice de mortes, mas ainda precisam ser estudadas. Não sei se é legal sair do domínio de grupos armados para ficar sob domínio do Estado. Em alguns lugares agora é o policial quem diz o que você pode escutar em casa, tem câmeras vigiando o tempo todo. Isso não é cidadania. Para o morador que vive a violência, qualquer coisa é melhor que o confronto, que tiro. Ele escolhe o menos pior, mas daí a dizer que ele está satisfeito? As UPPs são medidas paliativas, não resolvem o problema. 3 – O que poderia ser feito? Não existe solução mágica, existe investimento a longo prazo. Para o domínio do Estado não virar ditadura, é preciso cidadania. São necessárias políticas assistenciais, segurança, saúde, educação. As pessoas precisam se sentir integrantes da cidade e ter os direitos respeitados. É preciso investir em inteligência, qualificação do policial, trabalhar a questão dos direitos humanos. A gente tem visto cada coisa grotesca. O caso do AfroReggae, por exemplo. 4 – Você fala da omissão na morte de Evandro João da Silva? Sim, aquilo foi bizarro. Esse tipo de polícia existe, infelizmente. Não é regra, mas quando a gente vê um caso desses, dá para imaginar o que sente o morador de um complexo de favelas. Imagina como é a relação com a polícia? O morador é contra polícia? Não. Eu sou contra? Não, mas quero outra polícia, não a que assalta o ladrão e não socorre a vítima. 5 – E o investimento em armas? Vejo isso com pesar e receio. Eu moro aqui e sei que essas armas serão usadas aqui. Quem vai sofrer as consequências somos nós. Para que se fabrica um fuzil em pleno século 21? Não é para guerra. O Governo gasta uma grana, continua investindo na lógica do confronto e quem paga o pato são os moradores. 6 – Muitos viram vítimas, não? A Maré tem 140 mil pessoas e milhares de casas de reboco. Uma arma dessas perfura tijolos facilmente. Em tiroteio, não tem bala perdida, essa bala encontra alguém, a família de alguém. O número de óbitos nos últimos 4 meses foi muito alto. São jovens negros que poderiam estar estudando e contribuindo para o crescimento das favelas, ajudando a melhorar as condições de vida de todos. Existem outras formas de combater o tráfico. É só trabalhar com inteligência. 7 – Controle de movimentação financeira? Exatamente. Que dinheiro é esse? Não dá para imaginar que uma favela como a da Maré movimenta milhões. Se fosse assim, eu moraria em uma casa enorme, linda. Essa grana do tráfico mundial não entra na favela. Uma pequena parte passa por aqui. Concentram a violência na favela para tirar o foco. A polícia poderia combater a exportação de drogas, a importação de armas, acompanhar a movimentação financeira, verificar quem são os empresários envolvidos. Mas não. Gasta-se milhões com helicópteros e carros blindados. O Caveirão é uma aberração. 8 – Aberração? É. Para ter uma ideia, o Caveirão não tem espaço para levar ninguém preso. O cara compra um carro blindado para entrar em um confronto e não levar ninguém preso. Ou seja, ele só entra para matar. Só que a gente não tem pena de morte no Brasil. Os carros têm um sistema de som e passam provocando as pessoas, tentando incitar os bandidos, chamam disso e daquilo. São policiais sem o menor preparo, sem a menor formação para um papel tão importante quanto é o de agente de segurança. Imagina como fica a imagem desse policial na favela? Você perde todo respeito. 9 – E o que dizer da Olimpíada? Quando se fala em Olimpíada, é importante pensar qual legado ficará para a cidade e para as favelas. É importante pensar a favela como um patrimônio e parar de achar que é problema. Não é. Se for ver, na área de habitação, por exemplo, as favelas podem ser modelo, virar referência. Quando se pensa em cidades com grande circulação, grande densidade e poucas possibilidade de expansão, na favela há varias soluções. Dá para estudar a fundo isso. É só ver a verticalização ou a construção de lajes, estratégias desenvolvidas pelos moradores para melhoria das condições de vida. O que é a laje? É condição de lazer. 10 – Uma cidade em que o pobre não está na periferia é mais democrática? Sim, existe integração da favela com bairros ricos. Se a gente tivesse uma guerra como os jornais dizem, esses bairros teriam sido invadidos. O povo gosta da cidade. Temos que pensar outro modelo, um em que o morador de outros bairros se sinta à vontade para ir na favela e vice-versa. Aí, seria a Cidade Maravilhosa mesmo. Aliás, o que seria do Rio sem Cartola, sem Bezerra da Silva, sem os Romários da vida? A favela tem comércio, cultura. Como valorizar isso? Não é comprando Caveirão, tratando a gente como estranho. Os muros entram na lógica de ver favela como problema. Problema você isola. Essa lógica protege quem? Só é cidadão quem passa de carro na avenida? Por Daniel Santini daniel.santini@folhauniversal.com.br |
ENTREVISTAS: Francisco Marcelo da Silva - as Favelas são patrimônios
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